Campanha combate preconceito contra os ostomizados
O paciente pode ter uma vida normal, com a bolsa de colonoscopia. Foto: Pinterest
Reportagem Alana Gandra
A Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP) lança no próximo dia 16, quando se comemora o Dia Nacional dos Ostomizados, a segunda edição de campanha nacional que visa informar os cidadãos sobre o que é a ostomia e, ao mesmo tempo, combater o preconceito. O propósito da entidade é promover uma mobilização por acolhimento a esses pacientes, promovendo, ao mesmo tempo, sua inclusão na sociedade. “A gente está fazendo essa campanha para desmistificar algumas informações e tentar deixar esse termo o mais leve possível”, disse à reportagem a médica Ana Sarah Portilho, diretora de Comunicação da SBCP.
Ao longo de novembro, serão promovidas ações de esclarecimento e acolhimento e divulgados vídeos e posts com conteúdo educativo nas redes sociais da SBCP (@portaldacoloproctologia), com o objetivo de combater o preconceito.
Uma das desinformações é que a bolsa de colostomia impede o paciente de fazer suas atividades comuns. “Isso não é verdade. O paciente pode ter uma vida normal, pode trabalhar, pode tomar banho, pode ir à praia, pode ter relações (sexuais). A bolsa de colonoscopia não impede o paciente de ter uma vida normal”, sustentou Ana Sarah.
Ela afirmou que a exposição da doença que acometeu a cantora Preta Gil serviu para esclarecer a sociedade sobre o que é uma pessoa ostomizada. “Sim. Acho que foi um bom exemplo para a população em geral entender o que significa. E ela foi a prova viva de que, realmente, dá para ter uma vida normal com a bolsa de colostomia ou de ileostomia”.
Cirurgias
Na coloproctologia, as ostomias são procedimentos cirúrgicos que criam uma abertura no abdômen (o estoma) para permitir a eliminação de fezes e gases quando o trânsito intestinal precisa ser desviado devido a doenças ou traumas. Em muitos casos, trata-se de uma intervenção que salva vidas e pode ser temporária ou definitiva, segundo a SBCP.
“São diversas situações em que a gente precisa desviar o trânsito intestinal do caminho comum que ele faz até a região anal. Essa bolsinha é necessária para desviar o trânsito em algumas situações de urgência, como cirurgias de urgência de trauma abdominal, como foi do ex-presidente Jair Bolsonaro, ou em cirurgias que têm uma perfuração intestinal, como diverticulite aguda, que requer um procedimento cirúrgico, ou em cirurgias que a gente precisa desviar o trânsito temporariamente. Por exemplo, uma cirurgia de câncer de reto baixo ou câncer anal à qual nós fazemos uma anastomose, ou emenda, que pode ser de risco.”
“Então, a gente deixa com uma bolsa de ileoscopia, que é um estoma também, temporariamente, enquanto essa anastomose cicatriza. Ou seja, não é uma cirurgia de urgência”, explicou a diretora da SBCP. Essa ileoscopia de proteção pode ser necessária de dois a três meses, dependendo da situação e da cicatrização do paciente. Anastomose é uma conexão ou abertura entre duas estruturas tubulares do corpo, como vasos sanguíneos e o trato gastrointestinal.

Outra cirurgia semelhante a essa é a proctocolectomia, que remove o cólon e o reto, sendo indicada para tratar doenças graves como colite ulcerativa, doença de Crohn, câncer ou defeitos congênitos, especialmente quando os tratamentos clínicos falham.
SUS
De acordo com o Sistema de Informações Hospitalares do Ministério da Saúde (SIH), nos últimos dez anos foram realizadas mais de 110,8 mil ostomias no Brasil pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sendo 64.120 procedimentos de colostomia e 46.688 de jejunostomia/ileostomia. A estimativa é que haja mais de 400 mil ostomizados no país, que enfrentam desinformação e discriminação. As ostomias temporárias são indicadas quando há necessidade de desviar o trânsito intestinal até que a região operada esteja completamente cicatrizada. Já as permanentes são realizadas quando não é possível restabelecer o trajeto natural das fezes.
Ana Sarah Portilho informou que há três tipos de estomia, dependendo da área do intestino em que foi realizada: colostomia, que é abertura no cólon (intestino grosso); ileostomia, abertura no íleo (parte final do intestino delgado); e a jejunostomia, quando se faz uma abertura no jejuno (parte central do intestino delgado), com objetivo de introdução de uma sonda alimentar. Dependendo da situação, pacientes sujeitos a uma jejunostomia ficam com essa sonda pelo resto da vida, disse a diretora.
“Se o paciente tiver dificuldade de se alimentar por boca, essa sonda vai ser necessária por longo prazo. Essa cirurgia é diferente das outras que são para desviar o trânsito. Normalmente, ela é para se alimentar”.
Políticas públicas
Na avaliação da dra. Ana Sarah Portilho, as políticas públicas dirigidas ao cuidado e à qualidade de vida das pessoas ostomizadas funciona muito bem pelo SUS. ”Claro que o SUS tem suas dificuldades mas, normalmente, tem profissionais focados nesse atendimento. Representa um suporte para esses pacientes, no sentido de saúde e orientação, talvez não tanto no sentido de informação à população em geral, que não tem o estoma. Mas, quem tem o estoma é orientado adequadamente”.
A SBCP explicou que após o procedimento para realização da estomia, o paciente recebe atendimento de uma equipe multidisciplinar, incluindo coloproctologista, psicólogo e enfermeiro estomaterapeuta para as devidas orientações. No SUS, isso também ocorre. É oferecido atendimento especializado e há distribuição de bolsinhas coletoras e acessórios. Ana Sarah Portilho afiançou que com a devida adaptação e os cuidados adequados com a bolsinha, os ostomizados podem ter uma vida normal, com qualidade, embora devendo ficar em contato sempre com a equipe médica
