INC realiza pesquisa que trata alucinações em pessoas com Alzheimer

Médico Pedro Kowacs (primeiro à esquerda) com o corpo clínico do Centro de Pesquisa Clínica do INC

Reportagem Alana Gandra

O Centro de Pesquisa Clínica do Instituto de Neurologia de Curitiba (INC) está recrutando pacientes para uma pesquisa voltada ao tratamento de alucinações e delírios em pessoas com Alzheimer.

O neurologista Pedro Kowacs, chefe do Centro de Pesquisa Clínica do INC, explicou à reportagem que se trata de uma pesquisa rigorosa, feita em conjunto com a indústria farmacêutica, que testa medicamentos novos que não têm efeitos colaterais de medicamentos antigos. A meta é diminuir os sintomas dos pacientes com Alzheimer e melhorar a qualidade de vida das pessoas.

“Esse medicamento, particularmente, é muito importante, porque ele não tem os efeitos colaterais dos medicamentos antigos que, muitas vezes, levavam os pacientes a apresentar rigidez, ficarem trêmulos, como quem tem doença de Parkinson, ou mesmo ficarem apáticos. Esses medicamentos não têm mais esses efeitos colaterais. Isso é muito bom, porque nós ficamos mais à vontade para prescrevê-los”, declarou o médico.

Segundo Kowacs, a seleção de pacientes para a pesquisa é difícil porque eles têm que atender a critérios de inclusão, que são muito rigorosos. Quando algum paciente não preenche algum critério de seleção, ele não participa do estudo.

“Ele tem que concordar com as regras da pesquisa clínica, porque os direitos do paciente são garantidos por entidades internacionais; está ciente que pode sair da pesquisa quando quiser sem que haja nenhum tipo de represália”. O diagnóstico, porém, tem que ser muito preciso.

“Muitas vezes são feitos exames cujo custo, para pacientes com Alzheimer, alcançam entre R$ 8 mil a R$ 9 mil e, na pesquisa, são feitos de graça. Os pacientes têm também transporte e alimentação durante o estudo. Os pacientes, entretanto, não podem ter fatores que gerem dúvidas ou confusão com relação se o efeito foi relacionado à medicação ou se está relacionado a outra questão médica envolvendo o paciente. “Tudo é muito controlado”.

Pedro Kowacs esclareceu, por outro lado, que o paciente que participa da pesquisa pode estar tomando outra medicação. Mas se estiver tomando algum medicamento proibido e se encontrar fora das regras, não pode participar.

Atendimento preliminar

Já estão sendo recrutados pacientes, que podem vir de qualquer parte do Brasil. Se alguém tiver um familiar com Alzheimer que tenha alucinações pode entrar em contato com o Centro de Pesquisa Clínica do INC, que fará um atendimento preliminar, até ‘online’, onde serão feitas algumas perguntas, para ver se o paciente se encaixa nos critérios de inclusão. Os testes já começaram. “Já temos pacientes participando, mas pacientes novos são sempre bem-vindos”.

O neurologista citou que no início da pandemia da Covid 19, o INC atendeu uma paciente que tinha demência e delírios. Seu tratamento custava, àquela época, R$ 25 mil por mês. “Agora, é gratuito. É uma dádiva, um sonho”.

Os resultados que forem apurados dirão se o medicamento poderá ser aprovado para comercialização. Kowacs esclareceu que ao entrarem no estudo, nem todos os pacientes terão um resultado positivo imediato. Isso ocorre porque alguns participantes começam a pesquisa tomando o medicamento novo e outros, placebo. Cerca de três meses depois, todos tomarão o medicamento.

“Todos vão ter benefícios depois de algum tempo de tratamento e nós vamos conhecer se esse medicamento tem algum impacto negativo no organismo. Para isso, serão feitos monitoramento do coração, exames laboratoriais.”

“Os pacientes são examinados da cabeça aos pés para garantir que o medicamento não tenha nenhum efeito colateral desagradável. Se for detectado algum efeito que possa trazer risco para o paciente, esse medicamento vai ser suspenso ou retirado. Ninguém é obrigado a continuar tomando remédio que esteja causando mal”.

Autorização

O medicamento usado na pesquisa está autorizado para testes pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). A autorização para comercialização é uma segunda etapa, que ocorre depois que o remédio passar nos testes e eles confirmarem que é de fato efetivo e seguro.

A expectativa é que esse novo medicamento beneficie uma quantidade elevada de pacientes no país. Essas pesquisas que estão sendo feitas atualmente visam estabilizar o quadro de Alzheimer ou retardar a progressão da doença.

“E felizmente, elas têm tido sucesso nisso. Os medicamentos que estão em teste têm conseguido segurar, fazer com que a progressão seja mais lenta, algumas vezes estabilizando a doença”.

Afirmou que o medicamento sozinho não é o mais importante. É preciso que o paciente tenha bons hábitos de vida, socialize, durma bem, se alimente de uma forma regrada. “Tudo isso é muito importante na prevenção e, também, no tratamento da doença de Alzheimer”.

Pesquisa anterior avaliou a segurança e a eficácia de uma nova medicação em pessoas com diagnóstico com comprometimento cognitivo leve ou demência leve devido ao Alzheimer. Também está em andamento outra pesquisa em doença de Alzheimer, e outras duas estão previstas para iniciar até o final do ano.

Todas buscam, em curto prazo, melhorar a qualidade de vida e diminuir os sintomas, e em médio e longo prazos, a reversão das lesões cerebrais. A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência e representa cerca de 60% a 70% dos casos.

Centro de Pesquisa do INC

O Centro de Pesquisa Clínica do INC atua há mais de 21 anos e é um dos maiores recrutadores do país em estudos neurológicos. No médio e longo prazo, as pesquisas objetivam a reversão das lesões cerebrais. Cerca de 50 estudos estão em andamento ou na fase final no INC, não só para Alzheimer, mas para outras doenças neurológicas também. “Eu acredito que, dentro de alguns anos, nós teremos, possivelmente, até 100 estudos”.

Pedro Kowacs revelou que, além das pesquisas em curso, o INC pretende realizar, pela primeira vez, um estudo em doença de Alzheimer moderada. “Porque, até agora, nós fazíamos estudos em pacientes em fase inicial ou até pré Alzheimer. Isso é um avanço. É possível que em um ou dois anos nós façamos um estudo em indivíduos com risco de ter Alzheimer, para saber prevenir o Alzheimer com risco aumentado da doença”.

Considerado um centro de referência de pesquisa, o Centro de Pesquisa Clínica do INC se dedica prioritariamente aos estudos em neurologia, com o objetivo de detalhar os efeitos de novos medicamentos ou outras formas de tratamento.

Reconhecido nos âmbitos nacional e internacional pela qualidade do trabalho, o centro já passou por diversas auditorias internacionais, inclusive inspeção da agência governamental norte-americana ‘Food and Drug Administration’ (FDA), responsável por proteger a saúde pública ao garantir a segurança, eficácia e segurança de alimentos, medicamentos, cosméticos, dispositivos médicos e outros produtos.

O Centro de Pesquisa Clínica do INC é regulado por comitês de ética local e nacional e também pela Anvisa.