UFF comemora 65 anos de criação com aula magna de Conceição Evaristo

Reitor da UFF, Antonio Claudio Nóbrega

Reitor da UFF, Antonio Claudio Nóbrega: Somos pioneiros em políticas afirmativas e cotas étnico-raciais

Reportagem Alana Gandra

A aula magna “Escrevivência: singularidades de um texto-negro-vida”, abre no próximo dia 28, às 15h, as comemorações pelos 65 anos da Universidade Federal Fluminense (UFF). Gratuita e aberta ao público, a aula será dada no Centro de Artes da UFF, em Niterói, pela escritora e professora visitante do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da instituição, Conceição Evaristo.

A universidade foi criada por decreto assinado pelo presidente Juscelino Kubitschek e se originou na reunião de escolas, institutos e faculdades pre-existentes, incluindo, por exemplo, a Faculdade de Medicina que está completando 100 anos, este ano. “Essa é uma característica da nossa universidade”, disse à reportagem, o reitor da UFF, Antonio Claudio Nóbrega.

O reitor destacou que a UFF foi criada com o objetivo original de formar mão de obra para o desenvolvimento de todo o estado do Rio de Janeiro, que ainda era capital do país. “Mas, ao longo do tempo, ela foi ganhando um protagonismo também em áreas de pesquisa científica. Ela ganhou muita força, principalmente, nos últimos 20 anos. Hoje, somos uma universidade que está presente em todo o estado do Rio de Janeiro. Estamos em nove municípios e em todas as mesorregiões do estado, com pelo menos uma unidade acadêmica da UFF desde a bacia de Angra dos Reis até o noroeste do estado, como Santo Antonio de Pádua, na região serrana, na Baixada Litorânea, além de duas fazendas, sendo uma em Cachoeiras de Macacu e outra em Iguaba Grande. É uma universidade que está organicamente relacionada ao desenvolvimento do estado do Rio de Janeiro”, assegurou Nóbrega.

Segundo o reitor, a UFF tem um perfil tríade, que se enquadra na missão constitucional de ensino, pesquisa e extensão. “Essa é também uma característica muito forte desde a criação da universidade, que são projetos e programas de interação com a sociedade. Isso inclui, por exemplo, ações mais recentes de inovação”. Nesse sentido, está programada para os próximos dias a inauguração do “hub” de inovação em Petrópolis.

Em relação à extensão, Nóbrega destacou que envolve um conjunto de programas e projetos com agentes da sociedade civil diretamente. Sustentou que a UFF possui também um perfil de inclusão marcante. “Nós somos pioneiros na inclusão de políticas afirmativas nos vestibulares e também em cotas étnico-raciais para concursos docentes. “Nós temos uma politica arrojada nesse sentido”. Analisou que, nesse contexto, na celebração dos 65 anos de existência da instituição, a aula magna de Conceição Evaristo se insere. “Ela é um ícone da luta antirracista e, mais do que isso, ela é uma grande autora que, através da sua escrita, se expressa como mulher negra e, portanto, representa muito bem o papel da nossa universidade na sociedade e no movimento de nos tornarmos acessíveis a toda a população brasileira”.

Conquistas

Entre as conquistas alcançadas em sua trajetória, uma ocorreu este ano, quando a professora do Departamento de Nutrição Social da UFF, Úrsula Bagni, conquistou o Prêmio Jabuti Acadêmico 2025, na categoria Ciência de Alimentos e Nutrição, com o livro Nutrição Inclusiva: Diversidade e inclusão em alimentação e nutrição. Realizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), com apoio da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) a premiação contempla publicações voltadas à formação universitária, à pesquisa e à difusão de saberes especializados. Na UFF, Úrsula Bagni coordena o Ambulatório de Nutrição Inclusiva, projeto de extensão que realiza atendimentos com foco em pessoas trans. O serviço tem como missão oferecer escuta qualificada, acolhimento e orientação em um espaço de cuidado e solidariedade.

O reitor Antonio Claudio Nóbrega afiançou que, ao longo do tempo, a UFF se legitimou junto à sociedade. “Talvez essa seja sua principal conquista. Hoje, a universidade é vista como uma instituição realizadora, inclusiva e comprometida com a sociedade. A UFF hoje tem um perfil que mostra que a universidade não é um castelo fechado, uma torre de marfim, como na sua origem, na história da humanidade, foi em alguns momentos um local elitizado, com acesso restrito”.

Informou que, atualmente, dois terços dos alunos da UFF são de famílias com renda de até um salário-mínimo e meio. “Essa é uma evidência muito boa de ser divulgada porque joga ao contrário de que a universidade é um espaço privilegiado, de classe média, excludente”. Admitiu, por outro lado, que a instituição ainda não chegou onde se deseja, “É claro que a gente quer que a UFF seja para todos os cursos e lugares. Ainda existem variações. Mas, como dado global, isso é muito impactante”. Nóbrega não tem dúvida que essa é a principal realização. “A legitimação junto à sociedade de uma universidade inclusiva e arrojada na sua realização”.

Pesquisas

Ex-presidentes de empresas como a Petrobras, polítcos, juristas, profissionais de sucesso de todas as áreas, médicos entre eles, cientistas com atuação no Brasil e também no exterior foram alunos da UFF, indicou o reitor.

Em termos de pesquisas, o reitor citou a recente visita à UFF da atual presidente da Petrobras, Magda Chambriard, neste mês de agosto, que ressaltou um projeto do Instituto de Física, em colaboração com outras unidades, como a de Geociências, que faz a medição do carbono 14. “É o único laboratório da América Latina que faz a medição da pureza dos biocombustíveis com o carbono 14. Essa é uma pesquisa muito relevante”, apontou Nóbrega. Lembrou que o Brasil é líder nessa área. Essa pesquisa da UFF já está sendo aplicada pela Petrobras na forma de prestação de serviço. “É uma pesquisa fundamental de física nuclear e já está em aplicação na sociedade. Pode também ser aplicada por outras empresas do setor petrolífero, em todo o mundo. A chancela da Petrobras e da universidade já está gerando encomendas fora do país para esse serviço”. É a UFF ganhando o mundo, admitiu o reitor.

Na área médica, uma pesquisa em telessaúde já está se transformando também em serviço. Nóbrega informou que esse movimento cresceu muito durante a pandemia da covid 19, mas carecia de uma estruturação. O Hospital Universitário Antonio Pedro (HUAP), que tem essa especialização, está chegando a populações carentes na ponta através de mecanismo de telessaúde. Na área de neuropsiquiatria infantil, por exemplo, de neurologia infantil, populações de municípios pequenos, como Silva Jardim, estão sendo atendidos por especialistas de elevada capacitação, através dessa comunicação à distância. “Essa é uma aplicação também concreta dessa tecnologia mais recente”.

A UFF tem trabalhado também na cultura de células-tronco, na área de cardiopatia. Antonio Claudio Nóbrega explicou que esse serviço não foi implementado porque está em fase inicial de pesquisa de utilização de células-tronco para recuperação mais acelerada de pacientes que tiveram infarto do miocárdio. A pesquisa vem sendo desenvolvida em cooperação internacional, com Estados Unidos. “Essa tecnologia já teve alguns movimentos no passado e está sendo agora reativada”, destacou.

Apoio estudantil

A celebração dos 65 anos engloba um conjunto de ações que estão sendo definidas e se estenderão até dezembro próximo. Nóbrega adiantou que as atividades envolvem interação com a sociedade também na área cultural. As ações ocorrerão em todos os ‘campi’ da UFF, das quais participarão, além de docentes e alunos, todos os servidores técnicos. “Nós vamos fazer essa comemoração ao longo do tempo. São sempre atividades de integração com a sociedade”.

A UFF se destaca ainda pela política de apoio à população estudantil. “São R$ 40 milhões investidos por ano em apoio à população vulnerável. Porque essa política de inclusão, de acesso à população vulnerável, tem que vir também acompanhada de uma política de apoio a elas, como moradia, alimentação”. O bandejão da UFF é o mais barato do Brasil, com custo ao universitário de apenas R$ 0,70. Presta também auxílio às mães e auxílio-doença. “Todo esse tipo de apoio a gente tem como política prioritária. E não só em Niterói, que é a sede da instituição”.

A UFF é também a universidade com maior número de alunos ativos no país: 70 mil. “É um tamanho maior do que muitos municípios”, garantiu o reitor. Natividade, por exemplo, tem apenas 15 mil habitantes.