O que Bolsonaro sinaliza sobre um eventual governo Flávio

Flávio, Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro durante encontro com Trump

A política externa raramente influi nas eleições brasileiras, mas desta vez pode ter pesado. Parte da razão é a atuação do governo Donald Trump em relação ao Brasil, que incluiu tarifas sobre exportações brasileiras, acusações de leniência com grupos criminosos e críticas ao Judiciário e até restrição de vistos à família de um ministro do STF. Houve ainda sinais de interferência a favor de Flávio Bolsonaro, denunciados por parlamentares americanos e líderes europeus.

Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, e o candidato Flávio Bolsonaro (PL) como favorito nas pesquisas, vale perguntar o que a pesquisa acadêmica sobre a gestão de seu pai permite conjecturar sobre seu possível futuro governo.

O que sabemos de 2019–2022

No recém lançado livro Atlas da Política Externa Brasileira, que contou com a contribuição de representantes de mais de 15 instituições de pesquisa, mapeamos mudanças bruscas em posturas de longo prazo da diplomacia brasileira.

Durante o governo Bolsonaro houve desengajamento de agendas multilaterais, como as negociações climáticas e a integração regional, e alinhamento ideológico aos EUA, que rendeu ao Brasil o status de aliado extra-OTAN em 2019. A promoção de uma identidade “ocidental” e cristã e a agenda de costumes levaram o país a recuar do apoio a políticas internacionais de direitos de mulheres, população LGBT e combate ao racismo.

A pandemia expôs os custos. A recusa de cooperar com outros países em desenvolvimento e a hostilidade ao governo chinês fragilizaram o acesso a insumos e arriscaram investimentos de um dos principais parceiros comerciais do país. O governo saiu enfraquecido, e pressões internas por pragmatismo ficaram visíveis. O recuo na transferência da embaixada em Israel, para não afetar os laços com os países árabes, grandes compradores de carnes brasileiras, é o exemplo mais claro.

O que pode se repetir

As declarações da campanha de Flávio indicam proximidade com Washington, com possíveis aberturas para negociar temas como o sistema de pagamentos PIX e o acesso privilegiado a minerais críticos e terras-raras. Acordos comerciais com a União Europeia estarão sob ameaça, em especial se houver afrouxamento da estrutura de proteção ambiental e desmatamento.

Nas discussões multilaterais, um novo governo Flávio Bolsonaro teria as condições para implementar uma agenda tão conservadora quanto o início do governo de seu pai, com chances de ser ainda mais radical, com reflexos no desengajamento nas discussões multilaterais sobre mudanças climáticas, proteção ambiental e regulação das big techs, e atuação concentrada em espaços onde uma pauta ultraconservadora possa ser promovida, como em fóruns de direitos humanos e agrupamentos regionais de afinidade ideológica. A busca por uma identidade de liderança do Sul tenderia a perder espaço, e a aproximação com países africanos, a enfraquecer.

Sua base de apoio também seria semelhante à do pai (Forças Armadas, setores evangélicos, finanças, mineração e agronegócio), e seus interesses voltariam a ser defendidos nos espaços globais. Isso aprofundaria a especialização brasileira em commodities, contrariando décadas de tentativas de diversificar a pauta exportadora.

O que pode ser diferente

Há ao menos quatro fatores que limitam a repetição. Primeiro, a China. A relação comercial tende ao pragmatismo, e o agronegócio é o primeiro a ter interesse em evitar rupturas. Mas setores ideológicos do bolsonarismo podem pressionar por posturas mais críticas, e a reação chinesa na gestão anterior (neutralidade e visão de longo prazo) não é garantia de que se repita. Iniciativas como os BRICS podem enfrentar períodos difíceis, e uma retirada brasileira, hoje improvável, não pode ser descartada.

Segundo, o contexto americano. O alinhamento de 2019 rendeu pouco ao Brasil. Hoje o interlocutor é um governo transacional que já impôs custos econômicos ao país, o que torna a reciprocidade ainda mais incerta. Como lidará um futuro governo Bolsonaro caso aumentem as deportações de brasileiros pelos EUA? É esperado alguma tensão em uma agenda assim. Além disso, qual o perfil adotado pelo governo americano dependerá se seguirá em curso o enfraquecimento doméstico do governo Donald Trump, os resultados das futuras eleições de meio de mandato para o parlamento e sua substituição com o novo mandato presidencial a partir de 2029.

Terceiro, o Itamaraty. A expectativa, relatada por analistas, de que Eduardo Bolsonaro, atualmente foragido nos EUA, assuma a chancelaria e promova mudanças no quadro diplomático tende a testar uma instituição zelosa de sua tradição. A capacidade de resistência burocrática, porém, teve resultados limitados em alterar as principais agendas do governo e pode encontrar um cenário mais desafiador desta vez.

Além disso, o governo Jair Bolsonaro foi marcado pela resistência imposta por diferentes frentes de grupos domésticos e internacionais, de setores do empresariado, da burocracia, do Congresso Nacional, de atores subnacionais e da sociedade civil. Se as premissas daquele tempo se mantiverem, são esperadas grandes disputas a respeito da política externa, e essa agenda pode se tornar um dos marcos da nova gestão.

O cenário que um novo presidente encontrará

Quem vencer em 25 de outubro herdará um cenário internacional adverso e terá de conciliar dois imperativos: preservar a margem de manobra brasileira, apoiada no multilateralismo e no direito internacional, e capitalizar a crescente rivalidade entre Estados Unidos e China sem ser capturado por ela.

A pesquisa que fizemos sobre 2019–2022 sugere que apostas centradas em afinidade ideológica tendem a custar isolamento e perda de margem negociadora. Se isso se repetirá em 2027 em um possível governo Bolsonaro, dependerá menos de declarações de campanha e mais do que os atores com poder de veto e os interesses econômicos permitirem.

Por Magno Klein Silva, Professor de Relações Internacionais, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em The Conversation