Novas sanções dos EUA podem reduzir superávit da balança brasileira

A queda de 27,4% no superávit da balança comercial, projetada em julho pela AEB, poderá ser ainda maior. Foto: Freepik

Reportagem Alana Gandra

A queda de 27,4% no superávit da balança comercial brasileira, projetada em julho deste ano pela Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), poderá ser ainda maior, caso se agravem as sanções impostas pelo governo norte-americano ao país, somadas às oscilações de preços no comércio mundial. A avaliação é do presidente-executivo da AEB, José Augusto de Castro.

O superávit da balança em 2025 foi estimado pela entidade em US$ 93,048 bilhões, em dezembro de 2024. Caso se confirme a revisão feita em julho, o superávit cairia para US$ 54,114 bilhões, em relação aos US$ 74,554 bilhões consolidados no ano passado.

“As variáveis são tantas que a gente não sabe qual a que terá mais peso”, externou à reportagem o presidente-executivo da AEB. “O mundo está em crise, mas as ‘commodities’ (produtos agrícolas e minerais comercializados no mercado exterior) não têm força nenhuma para subir. No momento, estão quietinhas, como se nada estivesse acontecendo no mundo, algumas delas até caindo. É um cenário ao qual não estamos acostumados. Estamos acostumados às oscilações fortes, para cima e para baixo. Só houve uma mudança de patamar, mas não é uma coisa brusca, fortíssima, que mude o cenário”.

Em relação ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, José Augusto de Castro afirmou que não se sabe exatamente quais serão as novas medidas adotadas contra o Brasil.

“Não sabemos ainda qual será o impacto dessas medidas porque o que estamos vendo hoje no mundo são preços, de modo geral, de manufaturados caindo, preços de ‘commodities’ estabilizados ou caindo, o comércio como um todo em regressão”. Os Estados Unidos, inclusive, apresentaram o primeiro déficit de 18,5%. A tendência deve ser essa.

Falta de fôlego

Lembrou também que na primeira semana de setembro, a média diária de exportações do Brasil atingiu patamar muito baixo. Ela estava em torno de US$ 1,4 bilhão e caiu para US$ 1,280 bilhão. “Que produtos foram, não sei dizer se foi uma queda de exportações para os Estados Unidos ou outra coisa. Isso mostra que alguma coisa agora começa a impactar o comércio exterior e fazer com que as exportações caiam”. Já as importações estão estabilizadas. “Mas para as exportações, está faltando fôlego. Estão caindo”.

O tarifaço imposto por Trump ao Brasil deverá afetar, em especial, os produtos manufaturados, estimou Castro. “Primeiro porque o Brasil já tem o famoso ‘Custo Brasil’ elevado, que não gera competitividade para o país. Segundo, porque o mundo todo hoje busca novos mercados e, quando isso acontece, tem que oferecer alguma coisa a mais. Todo mundo está oferecendo descontos. Esse preço menor significa que quando você consegue realizar uma exportação, ela já vem com queda”. Se o país não oferece preço menor, quando consegue efetuar uma exportação, a queda será ainda maior, porque não há preço para competir no mercado internacional.


Por isso, o presidente-executivo da AEB analisou que mesmo que nosso volume de exportação até não diminua, o cenário é muito difícil, porque evidencia uma busca pela sobrevivência que engloba uma avalanche de operações não tradicionais com as quais, infelizmente, o Brasil terá de conviver durante algum tempo. Para o Brasil, em especial, esse cenário é ruim porque, no momento, além do aspecto comercial, existe também o aspecto político, que está ganhando um peso muito grande.

Foto: Humberto Teski

“Enquanto outros países estão discutindo aspectos comerciais, nós estamos discutindo aspectos políticos aqui. O aspecto político não tem uma regra. Ele tanto pode ir para um lado, como para outro, mudando o cenário completamente”.

Novos mercados

Castro admitiu que a conquista de novos mercados compradores pelo Brasil não será tarefa fácil, porque o mundo todo está perseguindo o mesmo objetivo, com a vantagem de apresentar preços mais baixos. O que se sabe, ao certo, é que está havendo muita modificação quase diária no comércio externo. E todos os caminhos levam à redução de preços que, para um país que tem que exportar, como o Brasil, não é benéfico.

O superávit comercial está caindo agora, embora o patamar de US$ 54 bilhões ainda seja considerado um nível bem confortável. Castro afirmou, contudo, que se as ‘commodities’ tiverem uma queda muito forte, suas consequências sobre o superávit brasileiro só poderão ser analisadas no futuro. Ou seja, ele poderá cair ainda mais.

O presidente-executivo da AEB salientou que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) decidiu, no início de setembro, que ia aumentar a produção de petróleo. Em condições normais, quando isso acontece, o preço do petróleo cai. Mas não foi o que ocorreu. “Por enquanto, não gerou nenhuma mudança em termos de redução de preço, o que seria bom para o Brasil, que exporta petróleo, mas não é normal em termos de mercado de comércio exterior”.

China

Segundo Castro, nem uma redução tributária agora beneficiaria o Brasil porque o mundo todo está se ajustando, nesse momento. A China, por exemplo, para conquistar um cliente, não tem preço. Os preços praticados pela China são menores do que o mercado pratica. “Ela vende o que quer e o preço vai encontrar quem pagar. Para ela, o importante é vender; o preço é outra coisa. Nós não podemos fazer isso”.

Só o tempo dirá o que vai acontecer no mercado internacional. Castro não tem dúvida, porém, que os números serão piores na balança comercial em setembro e outubro. A supersafra deste ano é que está sustentando a balança, em termos de investimento, apontou. Observou, por outro lado, que nessa supersafra, a China não comprou nem um quilo de soja dos Estados Unidos. “Deu preferência ao Brasil”. Destacou, entretanto, que a posição da China pode mudar de repente, caso ocorra algum acordo com os Estados Unidos, que obrigue aquele país a comprar soja dos americanos e não do Brasil. “Aí, não temos nada a fazer; só lamentar”.

A AEB não descarta uma nova revisão da balança ainda este ano, caso aconteça uma mudança significativa de dados. No momento, a entidade não consegue projetar um cenário, porque sempre tem uma variável diferenciada. “Então, fica difícil para a gente projetar uma coisa sem saber o que vai acontecer”, concluiu Castro.